Superendividamento: como pedir a renegociação de todas as dívidas
Dívidas tomam o dinheiro do básico? Veja o que diz a Lei do Superendividamento, o que é mínimo existencial e como pedir ajuda no Procon ou na Justiça.
Se as suas dívidas somadas já não deixam dinheiro para comida, moradia e contas básicas, você pode pedir a renegociação de todas elas de uma vez, com base na Lei 14.181/2021, a Lei do Superendividamento. O pedido pode começar no Procon ou na Justiça e termina, se der certo, num plano de pagamento de até cinco anos que preserva uma parte da sua renda para viver.
O que é superendividamento pela lei
A Lei 14.181/2021 incluiu novas regras no Código de Defesa do Consumidor. Pela definição da lei, superendividamento é a impossibilidade evidente de uma pessoa física, de boa-fé, pagar o conjunto das suas dívidas de consumo (as que já venceram e as que vão vencer) sem comprometer o mínimo existencial.
Três pontos dessa definição importam:
- pessoa física: empresas e MEIs, na condição de empresa, seguem outras regras;
- boa-fé: dívidas feitas com fraude ou sem intenção de pagar não entram;
- dívidas de consumo: cartão, empréstimo pessoal, cheque especial, crediário, contas de consumo. Compras de produtos ou serviços de luxo de alto valor ficam de fora.
A lei também exclui da renegociação os financiamentos imobiliários, os créditos com garantia real e o crédito rural.
O que é mínimo existencial
Mínimo existencial é a parte da renda que precisa ficar com você para pagar o básico: alimentação, moradia, saúde, transporte. A ideia é que nenhum plano de pagamento pode tirar esse dinheiro de você.
O valor do mínimo existencial é definido por regulamentação do governo federal e já foi alterado depois da lei. Por isso, não confie em números que circulam na internet: confira o valor vigente no Procon ou no órgão que for analisar o seu caso. O conceito, porém, é estável: primeiro se protege o básico, depois se paga dívida com o que sobra.
Como saber se é o seu caso
Faça a conta com números reais do seu mês. Em um exemplo hipotético:
- renda líquida: R$ 2.500;
- aluguel, comida, luz, água, gás, transporte e remédios: R$ 1.900;
- sobra para dívidas: R$ 600;
- soma das parcelas mínimas de cartões, empréstimos e crediários: R$ 1.400.
Nesse exemplo, faltam R$ 800 por mês. Não há corte de supérfluo que feche essa diferença, e cada mês de atraso aumenta a dívida. Esse é o retrato típico de quem pode buscar a renegociação conjunta.
Se a diferença for pequena e der para resolver organizando a ordem de pagamento, comece por quais dívidas pagar primeiro e por negociações individuais.
Documentos para separar
Antes de procurar ajuda, reúna o que comprova a sua situação:
- documento com foto, CPF e comprovante de residência;
- comprovante de renda (holerite, extrato do benefício, declaração de autônomo ou extratos bancários);
- lista de todas as dívidas, com nome do credor, valor, parcela e contrato, quando tiver;
- relatório do Registrato, do Banco Central, que mostra empréstimos e cartões no seu CPF;
- contas das despesas básicas: aluguel, luz, água, gás, remédios, escola;
- faturas, boletos e mensagens de cobrança recentes.
Quanto mais completa a lista, mais fácil montar um plano que funcione. Inclua até as dívidas pequenas e as que estão com parentes, para que o retrato do seu mês fique fiel. Esconder uma dívida agora pode fazer o plano falhar depois.
Passo a passo no Procon
A lei permite que os órgãos de defesa do consumidor, como os Procons, conduzam a fase de conciliação. Alguns Procons, como o de São Paulo, mantêm atendimento específico para superendividamento. O caminho costuma ser:
- procurar o Procon da sua cidade ou estado, presencialmente ou pelo site, e pedir atendimento para superendividamento;
- apresentar os documentos e a lista de dívidas;
- o Procon chama os credores para uma audiência de conciliação, que pode ser coletiva;
- você apresenta uma proposta de pagamento que caiba na renda, preservando o mínimo existencial;
- se houver acordo, ele é registrado por escrito com as novas condições.
O Consumidor.gov.br serve para reclamações individuais contra uma empresa. Ele ajuda a negociar uma dívida específica, mas não substitui a renegociação conjunta.
Passo a passo na Justiça
Você também pode pedir diretamente ao Judiciário a repactuação das dívidas. Muitos tribunais têm centros de conciliação que recebem esses pedidos. Se você não pode pagar advogado, procure a Defensoria Pública do seu estado.
Pela lei, o processo funciona assim:
- audiência de conciliação com todos os credores, em que você apresenta um plano com prazo máximo de cinco anos;
- o credor que faltar sem justificativa pode ter a cobrança suspensa e os juros de atraso interrompidos, além de ficar sujeito ao plano;
- sem acordo, o juiz pode abrir um processo para revisar os contratos e fixar um plano judicial compulsório, com pagamento também em até cinco anos.
O plano pode prever prazos maiores, redução de encargos e uma data para retirar seu nome dos cadastros de inadimplentes. Em troca, você se compromete a não fazer novas dívidas que piorem a situação. Depois de cumprir um plano, um novo pedido só pode ser feito após dois anos.
O que não esperar
A renegociação não perdoa a dívida inteira nem limpa o nome na hora. Ela reorganiza o pagamento para que caiba na renda. O tempo de cada etapa varia conforme o Procon ou o tribunal, e as condições dependem do seu caso. Para dúvidas sobre o seu contrato, um defensor público ou advogado pode orientar.
Enquanto o processo anda, mantenha as contas básicas em dia e evite novos créditos. Se receber propostas de acordo individuais nesse período, leia o que conferir antes de aceitar.
Próximos passos
- Some sua renda líquida e suas despesas básicas e veja quanto sobra para dívidas.
- Liste todas as dívidas com credor, valor total e parcela mínima.
- Baixe o relatório do Registrato com sua conta gov.br.
- Procure o Procon da sua cidade ou a Defensoria Pública e peça atendimento para superendividamento.
- Não assine novos empréstimos até ter um plano de pagamento definido.
Perguntas frequentes
Quem pode pedir a renegociação por superendividamento?
O pedido de superendividamento limpa o nome?
Preciso de advogado para pedir?
Financiamento da casa entra na renegociação?
Fontes e referências
Indicadores de hoje
Ver no Banco CentralNão foi possível carregar os indicadores agora. Consulte no site do Banco Central.
Fonte: Banco Central do Brasil (série temporal SGS), consultado ao abrir a página.
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